
LEONARDO VIDAL RIELLA
Pioneiro em transplante de rins de outras espécies para seres humanos, médico dedica a vida à ampliação da disponibilidade de órgãos em um cenário de escassez
A ciência avançou a passos largos nos últimos anos para dar esperança a quem precisa de um transplante. O médico nefrologista brasileiro Leonardo V. Riella, que liderou o primeiro transplante mundial de um rim de porco geneticamente modificado, dedica a sua carreira a esses pacientes. Professor associado de Medicina e Cirurgia na Harvard Medical School (EUA), ele constrói pontes para o futuro de quem está na fila e intercala a rotina entre a clínica e o laboratório para combater a crise de escassez mundial de órgãos.
Aos 46 anos, o médico curitibano segue uma tradição de pioneiros, iniciada pelo pai, Miguel Carlos Riella, que liderou o primeiro programa brasileiro de diálise peritoneal domiciliar, no início dos anos de 1980. No caso de Leonardo, ele procura formas inovadoras para que existam mais órgãos disponíveis. Perseguindo esse objetivo, na condição de diretor de transplante renal do Massachusetts General Hospital, liderou, em 2024, o primeiro xenotransplante (troca de órgãos entre espécies diferentes) em um paciente vivo, Richard Slayman, passo determinante no segmento.
— Para tentar escalonar de uma maneira impactante, a gente tem que realmente pensar em formas inovadoras de ter esses órgãos para o transplante. Tanto no xenotransplante quanto na bioengenharia, quando se produz um órgão a partir de células-tronco, você cria a diferenciação. São as duas tecnologias que têm o maior potencial para tentar resolver esse problema. Existem outras estratégias em paralelo, como o aumento de doadores vivos, mas de magnitude muito menor do que a gente precisa — explica Riella.
DESAFIO DA BIOENGENHARIA
Apenas nos Estados Unidos, atualmente, a fila por um rim tem 100 mil pacientes, sendo que são realizados cerca de 28 mil transplantes por ano. Essa distância, explica o médico brasileiro, faz com que muitos pacientes acabem morrendo ou se tornem mais doentes enquanto esperam por um novo órgão.
Essa é a razão pela qual Riella e outros especialistas não param de avançar. De 2024 para cá, os resultados de seu trabalho e novos achados permitem entender melhor o espaço do xenotransplante e da bioengenharia nos dias de hoje, além de projetar o papel dessas técnicas para a saúde dos pacientes no futuro. Há quase uma década, Riella atua em pesquisas com células-tronco para desenvolver a arquitetura necessária para que um órgão produzido a partir da bioengenharia consiga reproduzir ao máximo a filtração de um rim normal, que é altamente eficiente. Tarefa nada simples, reconhece o cientista.
O plano não é apenas dar um novo órgão a quem precisa, mas também eliminar as complicações decorrentes do transplante como é feito hoje. Nas próximas décadas, a ideia é permitir que o novo órgão se torne “invisível” ao sistema imune.
— Esse é o sonho de qualquer médico. Com isso, você não precisaria estar usando imunossupressão. Só realizaria o transplante e o órgão seria aceito, sem nenhum problema a longo prazo. A tecnologia atualmente já permite modificar os genes e criar esses órgãos individualizados. Em 20 anos, 30 anos, teremos órgãos com essa capacidade de não necessitar o uso de imunossupressores.
(Roberto Maltchik)
Destaque em negrito/caixa:
“Em 20, 30 anos, teremos órgãos com essa capacidade de não necessitar o uso de imunossupressão”
